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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Veja alguns filmes selecionados por programas de incentivo ao audiovisual



Luiz Bolognesi, que fará um workshop do Edital para Filmes Transformadores


Houve um tempo em que o sistema de produção de filmes no Brasil envolvia volumes menores e com menos gente trabalhando. Os produtores usavam as suas economias ou procuravam financiamento em bancos. Em seguida, contratavam técnicos e artistas, compravam filme virgem, filmavam, montavam, divulgavam e finalmente aguardavam o público se manifestar pelas bilheterias. Agora que existe o mecenato e os incentivos fiscais para o audiovisual, se espalha uma nervosa busca pelos editais que selecionam os agraciados para receber o patrocínio.Atualmente fala-se muito de um Edital para Filmes Transformadores, que tem o apoio da produtora e gravadora Universal. Houve uma etapa inicial que escolheu 5 finalistas. Eles participaram de um workshop com o cineasta Luiz Bolognesi que, até o fim desta semana, irá trabalhar com as equipes para o aprofundamento dos roteiros. A gravadora Universal vai oferecer como insumo o licenciamento gratuito de 80 obras musicais para serem utilizadas, nas trilhas sonoras. Essa é uma face sonora do marketing

Dos 172 inscritos participam da etapa final apenas cinco projetos, que também receberão da Coca Cola 1 milhão de reais cada. São eles:

“A Revolução Será Televisionada", de Paschoal Samora,
"Azul Calcinha", de Rafael Primot,
"Do Jeito que São", de Bianca Lenti,
"Eleições", de Alice Riff, e
"Para Além dos Tribunais", de Flávio Botelho.

Todos esses produtores são do Rio e de SP. E também prossegue o cobiçado Programa Brasil de Todas as Telas, comandado pela Ancine e pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). O dinheiro para 6 projetos vem desse banco e de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, no total de R$ 5,13 milhões. Os felizardos são quatro séries para a televisão, além de um telefilme e um longa-metragem de ficção. São eles:

“Opção América" – de Adriana Dutra, Série documental do Canal Brasil, sobre imigrantes latinos.
"O Oráculo das Borboletas Amarelas" – de Tatiana Nequete, Série de ficção da Empresa Brasil de Comunicação, sobre uma menina que reage ao câncer de seu avo;
"A Cara do Futuro” - Série documental de Diego Maceiras sobre tecnologias de ponta e pesquisas inovadoras criadas no Brasil.
"Destino Incomum" – Civilizações perdidas" – Série documental de Henrique Castro Mendel, sobra locais em que, no passado, floresceram grandes civilizações.
"Um Filme de Verão" de Jo Serfaty – Telefilme documentário sobre quatro jovens moradores de favela, que poucas vezes saíram de seu bairro para circular pela cidade.
"4 x 100", de Tomás Portella – Longa-metragem de ficção, sobre os dramas e conflitos de moças que foram atletas olímpicas;

Vamos tomar nota de todos esses nomes todos, só pra ver se, um dia, 10%, ou pelo menos um esses títulos vier a ser lançado... Isso seria uma esperança de recuperação para o dinheiro público aí investido e de divulgação para todos aqueles que trabalharam nesses 11 filmes..
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domingo, 30 de julho de 2017

Os filmes lançados no circuito comercial de SP na semana iniciada em 27 07 2017




Dunkirk é um filme de guerra dirigido por Christopher Nolan
Três produções francesas, numa única semana com 10 estreias, representam 30% do total de filmes novos. Além disso, esses três títulos parecem ser o melhores da safra. Isso indica uma hegemonia, que vem se mantendo ao longo do desse ano.

O Reencontro, de Martin Provost, tem como título original La Sage Femme, que quer dizer “A mulher sábia”. Ela é interpretada pela excelente Catherine Frot, que foi a protagonista da comédia Margarite, sucesso marcante de 2016. No papel de uma parteira que é uma verdadeira artista nessa arte de trazer bebês ao mundo, ela tem uma grande surpresa
Na pele de Catherine Deneuve., a antiga amante de seu falecido pai, quer conversar, 30 anos depois de ter desaparecido sem deixar rastros. Agora as duas terão de aprender a aceitar uma à outra, com a revelação de antigos segredos. Provost é um ator, roteirista e diretor que em 2013 fez o instigante Violette, sobre um caso de amor de Simone de Beauvoir 

Com direção de Christian Duguay é lançado uma aventura histórica Os Meninos que Enganavam Nazistas sobre um grupinho de garotos judeus que, na França da Segunda Guerra buscavam escapar dos invasores e retomar o contato com os pais. Com mais de 30 títulos Na carreira, o canadense Christian Duguay é um dos mais importantes diretores do mercado francófono.

Numa coprodução unindo França, Inglaterra e Holanda, Christopher Nolan (autor de filmes do Batman) dirige o épico Dunkirk. Provavelmente com mais realismo do que já vimos no cinema, o filme narra a dramática Retirada de Dunkerke. Aquela foi uma sangrenta batalha que, no início da 2ª Guerra, determinou a expulsão das tropas aliadas, ou seja, franceses, ingleses e belgas que, na época, ainda se achavam em solo europeu. O diretor deve ter se superado ao fazer este docudrama. Porque ele é um cineasta que sempre esteve mais interessado em gêneros imaginativos, como a ficção científica de A Origem e Interestelar. 
O cinema argentino também vem crescendo em termos de aceitação entre nos. Acaba de estrear Esteros um filme do pouco conhecido Direção de Papu Curotto. Conta a história de dois rapazes que era, companheiros na juventude na cidade argentina de Paso de Los Libres. Depois de 10 anos afastados eles se reencontram e procuram retomar a amizade. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Revelados os indicados ao 16° Grande Prêmio do Cinema Brasileiro



Acaba de sair a lista dos indicados à 16ª edição do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, considerada a mais importante premiação do cinema nacional, porque é realizada pela Academia Brasileira de Cinema. Esta entidade corresponde ao Oscar porque é formada pelas diversas entidades de classe que reúnem as associações de técnicos de cinema no brasil, como fotógrafos, cinegrafistas, músicos, roteiristas, diretores etc. 



Cinco filmes estão na disputa do tão almejado prêmio de Melhor longa-metragem de ficção: “Aquarius”, “Boi Neon”, “Elis”, “Mãe Só Há Uma” e “Nise - O Coração da Loucura”. O longa-metragem “Elis”, de Hugo Prata, encabeça a lista comm12 indicações seguido de “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho com 11 e Boi Neon, de Gabriel Mascaro com 10. Ao todo, 35 longas e 18 curtas-metragens concorrem em 24 categorias. A cerimônia de premiação, que acontece no dia 5 de setembro (terça-feira), a partir das 20h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Sônia Braga e elenco de "Aquarius" no set de filmagem
Concorrem à estatueta de Melhor direção Afonso Poyart, por “Mais Forte Que o Mundo - A História de José Aldo”, Anna Muylaert, por “Mãe Só Há Uma”, David Schurmann, por “Pequeno Segredo”, Gabriel Mascaro, por “Boi Neon” e Kleber Mendonça Filho, por “Aquarius”.

O prêmio de Melhor atriz é disputado por Adriana Esteves (como Dilza por “Mundo Cão”), Andréia Horta (como Elis por “Elis”), Gloria Pires (como Nise da Silveira por “Nise - o Coração da Loucura”), Julia Lemmertz (como Heloisa por “Pequeno Segredo”), Sonia Braga (como Clara por “Aquarius”) e Sophie Charlotte (como Severina por “Reza a Lenda”).

Já na categoria Melhor ator estão no páreo Caio Blat (como Felipe por “BR716”), Cauã Reymond (como Ara por “Reza a lenda”), Chico Diaz (como Gomez por “Em nome da lei”), Domingos Montagner (como Corvo por “Um namorado para minha mulher”), Juliano Cazarré (como Iremar por “Boi Neon”) e Lázaro Ramos (como Paulinho por “Mundo cão”).


Andréia Horta em "Elis": longa é o recordista de indicações (12).
 

O voto popular abre no dia 01 de agosto, por meio do qual o público vai poder eleger seus preferidos através do site www.academiabrasileiradecinema.com.br nas categorias “Melhor longa-metragem ficção”, “Melhor longa-metragem documentário” e “Melhor longa-metragem estrangeiro”. Os filmes serão exibidos a partir do dia  10 de agosto em salas de cinema de seis cidades, em diferentes regiões do país: Será uma ótima oportunidade para quem não conseguiu assistir ou quiser rever as produções. A votação popular vai até o dia da cerimônia.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Apostando no docudrama, "Real" conta a história do plano econômico de 1994


O time econômico de Itamar Franco na encenação do filme

O público do Cinema Falado provavelmente não sabe, mas eu me afastei da crítica de cinema e da TV Cultura, entre 1995 e 2003, quando trabalhei no Ministério da Cultura, durante a gestão de FHC. Para apoiar meus professores e colegas, como Francisco Weffort, José Alvaro Moises e Otaviano De Fiore, interrompi uma atividade à qual me dedico há exatos 44 anos - de modo que acompanhei de perto o que se chamou de “retomada do cinema brasileiro”, bem como a implantação da Lei do Áudio Visual e do Plano Real. Para evitar que confundissem a minha opinião como propaganda, deixei para comentar o filme "Real - O Plano Por Trás da História" agora que ele já saiu de cartaz.
O filme dirigido por Rodrigo Bittencourt e produzido por Marco Audrá, que luta para dar continuidade a empresa que foi criada nos anos de 1950 pelo seu pai, Mario Audrá. Marinho, como era chamado por todos, foi talvez um dos empresários da história do cinema nacional que mais apaixonadamente se dedicou a ele. Um produtor que entregou sua saúde, sua existência e sua alma à Cinematográfica Maristela – cujos filmes, aliás, foram todos exibidos aqui na TV Cultura, como "Arara Vermelha", "Mãos Sangrentas" e "Leonora dos Sete Mares".

Não se trata de um documentário, nem de uma obra de ficção hollywoodiana, como o cinema americano costuma fazer, digamos, à granel. É na verdade uma mistura dos dois, se encaixando numa espécie de híbrido entre essas duas modalidades. Um gênero híbrido que o monumental cineasta inglês Peter Watkins chamaria de docudrama – que ele definiu como “o tratamento dramático dos dados e das informações”. Ele fez docudramas essenciais como "War Games" em 1965, "A Comuna de Paris", em 2000, e "Eward Munch", em 1973. Detalhe é que Peter Watkins está agora com 82 anos, mora na Lituania e mantem um site pessoal na internet.

O diretor Rodrigo Bittencourt (esq,) e o ator Emílio Orciollo Neto (Gustavo Franco, dir.)
Curiosamente, a ideia do docudrama surgiu quase ao mesmo tempo, na Inglaterra e na Itália, no momento em que televisão europeia começava a se estruturar, em busca de uma linguagem própria. Enquanto o inglês Peter Watkins trabalhava adaptando fatos históricos e jornalístico para a ficção televisiva, Roberto Rosselini fazia o mesmo em seu país. Entre 1966 e 1974 ele passou para a telinha as biografias de mais de 10 personagens históricos, entre os quais Luis XIV, Santo Agostinho, Descartes, Os Médici Blaise Pascal e Sócrates  

Os docudramas não são narrativas dotadas de recursos dramáticos típicos do cinema comercial, mas se preocupam com a fidelidade aos acontecimento. Elaboravam o que poderia ser visto como uma história factual, ou seja, econômica, em termos de análises e interpretações – mesmo que recorram a um protagonista para amarrar os episódios do roteiro. Isto é e um “modus operandi” muito semelhante ao que fizeram Rodrigo Bittencourt e sua equipe em “Real – o Plano por trás da História".

domingo, 9 de julho de 2017

"Ao Cair da Noite", filme de Joel Edgerton, é um bem realizado filme de terror



Filme faz jus ao título e usa muito da escuridão noturna

"Ao Cair da Noite" é um filme que, desde o título, sugere o gênero ao qual pertence – ou que pretende pertencer. O mesmo acontece com o título original: It Comes by Night – ou seja, Eles chegam à noite. Ambos significam quase a mesma coisa e se referem à ideia básica do horror que é acontecer no período da noite. 
A designação dos dois títulos coincide com esse horário – assim como a maioria dos pesadelos e dos crimes. É interessante notar que esses títulos têm a ver com referencias a todos os clássicos, do cinema e da literatura – em que apenas o nome da obra já causava arrepio, como "O Que Sussurrava nas Trevas", de Howard Phillips Lovecraft. Ao simplesmente ouvi-los, almas infantis de todas as idades já se dispõem a sentir medo.


Joel Edgerton tem o papel protagonista do filme

Por isso o diretor e roteirista do filme Trey Edward Shults coloca em cena duas crianças, uma de 5 e outra de 17 anos. Elas não se acham num passeio, ou colônia de férias, mas moram no coração de uma selva, desprovida de luz elétrica e – o que é o pior – numa casa grande e velha, dotada inclusive de sótãos que irradiam as mais secretas conversas e de portas vedadas à passagem de todos. Essa localização já garante meio caminho andado para o despertar do drama. Mas, o diretor tem talento suficiente para tirar leite de pedra --tal como diriam profissionais do crime, tipo Agatha Christie, se estivesse sem o habitual apoio de dezenas de personagens, cada um com a sua psicologia individual. Ou se os filhos do "Capitão Fantástico" não tivessem conhecimento dos motivos pelos quais se escondiam no meio do mato. 


O elenco comandado por Joel Edgerton se esforça para obter o máximo de efeito com um mínimo de recursos. E conseguem, porque no filme todos estão literalmente morrendo de medo por causa de uma ameaça que eles não sabem claramente o que seja. Em outras palavras, a produção se limita a apagar as luzes e decide economizar na cenografia e nos figurinos, porque basta uma máscara contra gazes para sugerir uma situação de horror - desde que as lentes e a câmara sejam de primeira qualidade, como devem ser aquelas providenciadas por Joel Edgerton, aqui acumulando a função de produtor. Mas não se assustem porque, mesmo sem um final que possa ser considerado conclusivo, "Ao cair da noite" é um bom filme de horror.

domingo, 2 de julho de 2017

Os filmes lançados no circuito comercial de SP na semana iniciada em 29 07 2016


Cena do filme "Terra Vermelha"
Novamente as estreias da semana abrem caminho para o cinema argentino. Desta vez por meio de uma coprodução com a Bélgica e o Brasil, num drama que apresenta uma problemática ecológica, mas que serve como pano de fundo para um incandescente caso de amor. Trata-se de “Terra Vermelha”. 
O diretor é o argentino Diego Martinez Vignatti, cinegrafista que fez vários trabalhos para o prestigiado mexicano Carlos Reygadas. A trama é centralizada na presença de um técnico belga que trabalha para um agronegócio multinacional, no qual ele é responsável por derrubar árvores numa selva natural, para plantar pinheiros a serviço de uma fábrica de papel. Ao conhecer uma professora, que defende a população local, atingida pelo uso de agrotóxicos, ele se apaixona e tudo muda em sua vida.
Quase uma novidade em nosso mercado de cinema, é lançada a produção gaúcha “Mar Inquieto” com direção, elenco e temática pouco conhecidos entre nós. Fernando Mantelli escreve e dirige essa história protagonizada por Rita Guedes: atriz que também produz o filme. É a história de uma moça que se esconde com o marido drogado numa praia deserta, mas é perseguida pelos traficantes que cobram o dinheiro que o casal lhes deve. 

Produção brasileira “puro sangue”, é o espesso e emocionalmente carregado “Introdução à música do sangue” – obra dramática do cineasta bissexto Luiz Carlos Lacerda, o popular “Bigode”. Ele que em 1987 fez uma cinebiografia de Leila Diniz e, dez anos mais tarde, apresentou “For all, o trampolim da Vitoria”— essa, uma obra histórica sobre a presença norte americana numa base militar instalada no Rio Grande do Norte
O elenco traz as atuações marcantes de Ney Latorraca e Bete Mendes, dando vida a um romance de Lucio Cardoso – escritor cultuado por líderes do cinema novo, como Ruy Santos e Paulo Cesar Saraceni. O enredo focaliza uma família do interior arcaico do Brasil que presencia a instalação da energia elétrica no lugarejo onde vivem, ou melhor, onde vegetam. 
Bom, para elevar o nosso astral quilômetros acima, temos o documentário nacional “Danado de bom", de Deby Brennand. É sobre a vida, a obra e a trajetória musical de João Leocádio da Silva, que compôs mais de 3 mil músicas, cantadas por quase toda a população de artistas nordestinos, de Luis Gonzaga a Dominguinhos, passando por Elba Ramalho e Gilberto Gil 

No 12° CineOP, um dos pontos altos foi a exibição da comédia "Um Caso de Polícia"


Carla Crivelli, diretora de "Um Caso de Polícia"
Por incrível que isso possa parecer, um dos pontos elevados da 12ª CineOP, em Ouro Preto, foi a exibição da comédia “Um caso de Polícia”, um dos primeiros trabalhos da inesquecível Glauce Rocha. Ela faleceu aos 41 anos em 1971, depois de trabalhar em 35 filmes, entre eles “Terra em Transe” de Glauber Rocha. O filme foi dirigido por Carla Civelli, irmã do célebre cineasta italiano Mario Civelli que, entre outros cargos por ele exercidos no Brasil, foi o de diretor da Maristela – uma das mais importantes produtoras dos anos de 1950 e concorrente da Vera Cruz. Hoje em dia pouca gente sabe que Carla era diretora e produtora de filmes, além de cenógrafa e montadora. 
O filme “Um caso de Polícia” permaneceu muitos anos trancado num armário, até ser resgatado e em seguida restaurado, num complexo processo empreendido pela família, em especial por sua sobrinha, a produtora Patricia Civelli. Um trabalho minucioso de filigrana, que envolveu diversas instituições dedicadas à preservação do patrimônio áudio visual. A etapa final dessa odisseia tecnológica e amorosa, mostra que o esforço valeu a pena porque “Um caso de Polícia” é, na verdade, uma surpresa mais do que agradável: é simplesmente sensacional. Exibida no Cine Vila Rica, em Ouro Preto, a obra foi aplaudida efusivamente pelo público, após ter sido brindada com uma série de inúmeras e sinceras gargalhadas. 

Trata-se de um falso drama de suspense, porque gira em torno de uma moça que acredita ter descoberto uma trama assassina – num roteiro que causaria inveja tanto a Alfred Hitchcock quanto a Ernst Lubitch. Os cuidados técnicos do restauro dão a impressão de a obra ter sido filmada ontem, tal a nitidez e o brilho da imagem. No entanto, o que mais impressiona é a fluência da história, a competência e a vivacidade do elenco e, principalmente, a atualidade do humor que marca o argumento escrito por ninguém menos que Dias Gomes – naquele tempo e que ele se dedicava ao teatro e, portanto, na época da filmagem, possivelmente já sonhava com o enredo da peça “O Pagador de Promessas”, que três anos mais tarde foi passada para o cinema pelo produtor Oswaldo Massaini, com a qual conquistou a Palma de Ouro em Cannes.

sábado, 24 de junho de 2017

Em mais uma edição o CineOP mostra seu amor pela a história do cinema nacional


Evento durante o festival de Ouro Preto

O CineOP é um evento “sui generis”, porque combina o clima alegre de um festival competitivo com a concentração intelectual de um congresso de pesquisadores. No discreto, mas espaçoso Cine Vila Rica, a noite de estreia da 12ª edição do CineOP foi aquecida pela pré-estreia mundial do longa “Desarquivando Alice Gonzaga”, dirigido por Betse de Paula.

O título do filme, aliás, é uma brincadeira dessa cineasta - filha do diretor Zelito Viana e sobrinha de Chico Anísio. “Desarquivando Alice Gonzaga” tem a ver com pesquisa de filmes e com o lendário país das maravilhas. Quando menina, esta Alice desvendou mundo do cinema pelas mãos do pai Adhemar Gonzaga – um dos pioneiros da produção industrial do cinema no Brasil. Ele foi um dos fundadores da Cinédia – empresa que legou à história obras como “Bonequinha de Seda”, “Ganga Bruta” e “O Ébrio” – aliás, o maior sucesso de bilheteria do Brasil, entre outros 48 títulos.
Na qualidade de um evento comprometido com a história do cinema no país, todo o ano Ouro Preto costuma homenagear figuras que contribuíram para dar corpo e alma a essa evolução. Na noite de abertura, tivemos homenagens para personalidades com a importância da montadora Cristina Amaral. Ela foi parceira de trabalho de criadores fundamentais – casos, por exemplo, de Carlos Reichenbach, Andrea Tonacci e Carlos Adriano.

Outro homenageado em Ouro Preto foi o colecionador e pesquisador Antônio Leão da Silva Neto – ele que é autor de diversos dicionários indispensáveis para o estudo em profundidade do cinema brasileiro. Homenageou-se também e o projeto “Vídeo nas Aldeias”, de Vincent Carelli, que comemora 30 anos se dedicando a essa bela iniciativa de difusão audiovisual entre os indígenas.

Lembrando as três linhas mestras da CineOP – ou seja, as temáticas de Preservação, História e Educação – neste ano o evento seguirá a prioridade de colocar em evidência os registros e as formas de olhar daqueles grupos que, há muito tempo, tem sido ignorados pelos processos dominantes de preservação e produção. Neste momento em que as discussões sobre democracia e inclusão social vêm ganhando mais espaço, é necessário dar ouvidos ao que se diz na tribuna do 12º Cine Op.... 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teve início a 12° do CINEOP, o festival de cinema de Ouro Preto



Exibição durante o evento, ao ar livre

Entre os dias 21 e 26 de junho de 2017, se desenvolve a 12ª CINEOP. Este é o nome oficial do Festival de cinema de Ouro Preto, que acontece anualmente naquela Cidade histórica mineira – e de onde o programa cinema falado está transmitindo agora. Aqui haverá uma vasta programação gratuita de filmes em pré-estreias, retrospectivas históricas e mostras temáticas, além de debates e encontros para refletir sobre a produção audiovisual do país, agora tratada como patrimônio nacional.

Neste ano, a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto reafirma o propósito de ser um espaço privilegiado para discussão sobre a indústria brasileira de cinema a partir de seus aspectos históricos e estéticos, bem como as formas pelas quais o passado se manifesta no presente e aponta caminhos para o futuro. 

A cidade Ouro Preto se destaca pelo fato de ser patrimônio da humanidade. No evento, ela será o palco principal da sétima arte e receberá a visita de um amplo contingente de profissionais do audiovisual: pesquisadores, técnicos em preservação, críticos, acadêmicos, jornalistas e representantes de entidades de classe. Junto com o público em geral, o propósito do Cine OP é conhecer, discutir, dialogar e pensar o cinema
como patrimônio de uma nação.

A cidade de Ouro Preto, patrimônio da humanidade


O eixo temático desta edição tem como mote uma pergunta, ou seja, “Quem Conta a História no Cinema Brasileiro?”. A programação é gratuita e vai ocupar o Cine Vila-Rica, a Praça Tiradentes e o Centro de Artes e Convenções da cidade. Neste ano, serão exibidos 76 filmes, sendo 13 longas, 4 médias e 59 curtas-metragens, vindos de 11 estados do Brasil e também de Cuba. 
 
Entre as diversas mostras, estão programadas a Cine-Escola, sobre educação, e o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, além do IX Fórum da Rede Kino. Estarão reunidos 90 profissionais, ocupando-se de debates e diversas mesas com discussões temáticas. Mais de 400 convidados já confirmaram presença em Ouro Preto.
A coordenadora do evento Raquel Hallack o define dessa forma: “O Cine Op é pioneiro em enfocar o cinema como patrimônio cultural. Ao longo de sua trajetória, ele representa um espaço único e privilegiado para problematizar possibilidades e limites da pesquisa, da difusão e da preservação de conteúdos.” Trata-se de manter em diálogo os principais setores do audiovisual e da educação. Amanhã continuaremos a transmiter direto da Cine Op. Até la...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Meio western e introspectivo, "Comeback" é marcado como o último filme de Nelson Xavier



Cena cuja feição sombria traduz a melancolia do protagonista.

“Comeback” é um filme de difícil conceituação. De início parece um western, depois se transforma num drama introspectivo e melancólico. Mas a sua principal característica é ter sido o derradeiro filme de Nelson Xavier, falecido a pouco menos de um mês, aos 75 anos de idade. Ator, roteirista e inspirador de vários títulos do cinema novo, ele representou uma das mais importantes figuras da história da dramaturgia brasileira. Este filme deu a Xavier o prêmio de melhor ator no Festival do Rio 2016. 

Nelson Xavier começou sua carreira no Teatro. No cinema e na TV atuou em 96 títulos, sendo, portanto um personagem presente em diversos gêneros nacionais, desde os teleteatros da TV Tupi nos anos de 1950, passando pelo cinema novo, na década de1960, por uma série de novelas na TV Globo a partir de 1970 e uma grande variedade de filmes depois disso. Alguns se mostraram especialmente marcados pela sua atuação, como por exemplo “Rainha Diaba”, “Dona Flor e seus Dois Maridos”, “Lampião e Maria Bonita”, “Narradores da Javé” e, especialmente, “Xico Xavier”, de quem não era parente, mas com quem tinha uma forte identificação religiosa. 

“Comeback” é o retrato de Amador, um pistoleiro e matador aposentado. A historia de fato se passa no centro oeste, numa localidade onde mora o roteirista e diretor do filme, o goiano Erico Rassi. Falo de Anápolis, uma cidade cuja periferia parece ter sido moldada para um filme de faroeste. Amplos espaços e um clima de desolação e abandono. De fala mansa e modulada por um português corretíssimo, o filme e seu protagonista foram premiados no FESTin – Festival de Cinema Itinerante de língua Portuguesa que aconteceu em março na cidade de Lisboa. 


O velho pistoleiro Amador é o último personagem de Nelson Xavier

O velho pistoleiro é solitário e amargurado, sempre se lembrando de um passado que ele considerava heroico. Tanto assim que, todas as noites, ele abria um velho álbum no qual coleciona recortes de jornal, documentando os seus antigos crimes. Sentia-se humilhado em contato com os antigos colegas de bandidagem. Até que uma dupla de cineastas meio amadores resolve procura-lo para auxiliar na feitura de um filme sobre os veteranos bandoleiros da cidade. Nesse ponto, sua memória é despertada e ele decide voltar á ativa. Ou seja, vai reagir com violência à hostilidade do mundo que o cerca. 

O filme é quase uma obra minimalista, com falas curtas, pontuando diálogos econômicos e sintéticos. Trata-se do primeiro longa de ficção do diretor goiano Erico Rassi, e que deixa claro um possível futuro de filmes expressivos. Com uma boa dose de ironia e um humor cortante, o roteiro utiliza situações inesperadas para abordar a angústia da solidão, da melancolia da velhice e do autoritarismo que voltam a incomodar o personagem central. Certamente ele não seria incluído em um filme de Clint Eastwood, daqueles cujo tema é um heroísmo tardio. Mas certamente é uma referencia ao gênero western que teima em não desaparecer.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Rei Arthur", um filme acima da média, readapta a milenar história do herói bretão


Djimon Hounsou (esquerda) e Charlie Hunnam (direita) em cena do longa

O blockbuster de ocasião, ou seja, o filme mais comentado na mídia agora é “Rei Arthur: a Lenda da Espada”. Fato é que se trata de uma história extremamente antiga, há muitos séculos difundida, e que quase todo o mundo conhece. Ou, no mínimo, sobre a qual já ouviu falar alguma coisa. Livros infantis, revistas em quadrinhos filmes de cinema ou animações, adaptações curtas e mais alongadas, musicais de palco. Enfim todos nós temos alguma ideia do que seja essa aventura e o herói que a interpreta. Portanto, o grande problema do diretor e roteirista Guy Ritchie foi criar uma obra inédita sobre o tema. 
 
O filme é de fato muito elaborado em termos de texto e linguagem audiovisual. Por isso vamos tentar agora uma espécie de aquecimento, de análise prévia sobre o que acabamos de ver sobre esse espetáculo marcado para estrear agora no dia 18. 

É claro que o tema da magia precisava ocupar o primeiro plano do roteiro. Até porque a série de romances sobre ele e Camelot, chamado “As Brunas de Avalon”, é uma produção essencial e que já ocupou o espaço nas livrarias que já foi da saga Harry Potter. Mas não cabia incluir a figura barbuda do Mago Merlin, porque a total maioria dos personagens é do gênero masculino. Quase não há mulheres em cena. Então Guy Ritchie preferiu escalar uma Maga, que é o papel da diáfana espanhola, aqui muito boa no papel, Astrid Berges-Frisbey. 

Cena da espada fincada na pedra: um dos pontos altos do filme

A maioria acredita que a história se passa na Idade Média europeia. OK. mas aquele prolongado período durou cerca de mil anos e teve várias fases. A partir das indicações fornecidas na tela pela arquitetura, armas e vestuário do filme, parece que tudo se passa no centro da idade Média, com armaduras reluzentes, espadas de aço e armas de fogo. Mas as referências históricas da narrativa que, se acham misturadas com lendas e ficção, a colocam no final do século 5º, ainda no fim do Império Romano. Isso, quando os Bretões enfrentavam as tribos de saxões. Mas o diretor prefere contar com os vikings, talvez porque para ele eram mais interessantes do ponto de vista visual. 

O filme, porém, está acima da média das aventuras épicas e a cena da espada na pedra é uma das melhores.  No entanto, os problemas mais graves estão no texto, que chama a Inglaterra de “Nação” – que na verdade só apareceu como tal no meio da Idade Média, após a invasão dos normandos no século XI. No filme é todo exagerado em termos de volume e tamanho. Os exércitos e os castelos são superdimensionados. A cidade de Londinium, que era o primeiro nome de Londres, aparece como uma metrópole majestosa, mas era apenas uma vila romana cercada por muralhas, apenas o povoado mais populoso da Bretanha. 

Charlie Hunnam vive Rei Arthur

O problema do anacronismo, aliás, se manifesta algumas vezes ao longo do filme. Que, aliás conta com no mínimo dois atores que já conhecemos da série “The Game of Thrones”. Por exemplo, o tio de Arthur interpretado, por Jude Law, cumprimenta os seus guerreiros com uma saudação igual à dos nazistas. E a própria formação do herói se parece com a de Jesus Cristo, com a sua peregrinação a sós pelo deserto. Além disso, do ponto de vista físico, o ator inglês Charlie Hunnam se parece com um halterofilista ou guerreiro ninja.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"A Grande Ilusão", de S. Zaillin, é um filme muito temático para os dias correntes




Sean Penn e Mark Ruffalo integram o seleto elenco do longa

Talvez o filme mais sugestivo deste momento date de 2006 – tem pelo menos mais de 10 anos – e até hoje ainda não foi lançado nos cinemas. Trata-se de “A Grande Ilusão”. Pode parecer mentira, mas esse foi um dos mais importantes filmes americanos produzidos em 2006 nos EUA e, no entanto, só foi lançado no Brasil em DVD. 
O título original deste filme escrito e dirigido por Steven Zaillin é “All the King's Men” e conta com um elenco arrasador, em que o protagonista é Sean Penn. Mas veja só o nível dos coadjuvantes: Kate Winslet, Jude Law, James Gandolfini, Mark Ruffalo e Anthony Hopkins... e trazendo como atração adicional a elegância de Patricia Clarkson – que, além de atriz, é uma das melhores narradoras de documentários para TV, como "For the Love of Movie: The Story of the American Film Criticism".
A proposta é contar a história de Huey Long, um político real que tinha o apelido The King Fish (ou seja, Tubarão) por causa da ferocidade no palanque. Seus discursos eram incomparáveis e nos debates ninguém o derrotava.


Sean Penn está impecável neste seu papel de Huey Long

Na verdade, o mais importante era o conteúdo sedutor das suas propostas, geralmente inflamadas pelo uísque. Vejam, ele simplesmente prometia a abolição da desigualdade social. Nada menos do que a repartição geral da riqueza nos EUA. Pra completar, ele combinava um estilo populista, mas, ao mesmo tempo comandava a corrupção no Estado da Louisiana. 

“A Grande Ilusão” é a refilmagem de um clássico de Robert Rossen que ganhou três Oscars em 1949: melhor filme, melhor atriz coadjuvante e melhor ator, para Broderick Crawford. Aliás, esses dois títulos se acham disponíveis em DVD no mercado brasileiro. 

Ambos os filmes se baseiam num livro de Robert Penn Warren (1905 – 1989) premiado com o Pullitzer e considerado um dos mais importantes romances americanos: a biografia disfarçada de um populista dos anos de 1930, o qual certamente chegaria à presidência se os escândalos da sua administração não fossem revelados. 

"All the King's Men" de 1949: vencedor do Oscar de Melhor Filme
Seu governo foi uma mistura de obras públicas gigantescas, feitas sem licitação e superfaturadas, com a sistemática compra de votos da oposição. O curioso é que, no começo da carreira política, ele era um trabalhador que ganhou notoriedade denunciando a corrupção das elites e, mais tarde, depois de apanhado com a mão na massa, alegou que não sabia de nada e jogou a culpa em alguns assessores. Sean Penn de 2006 está mais exuberante e, mesmo assim, mais natural que Broderick Crawford em 1949 no papel do protagonista, que morreu em 1935. Interpretando o marqueteiro do Tubarão, Jude Law realiza um dos melhores trabalhos de sua carreira.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Marcelo Gomes dirige o drama histórico "Joaquim", sobre a vida de Tiradentes



Filme se passa na Vila Rica antes dos tempos de luxo

Se não for o filme comercialmente mais atrativo, “Joaquim” é sem dúvida o título mais curioso desta temporada. Primeiro por ter como base uma narrativa biográfica do alferes Joaquim José da Silva Xavier. Aquele que em seu tempo foi conhecido como o Tiradentes.
Em seu nono trabalho, o diretor é o consagrado Marcelo Gomes, autor do premiado “Cinema, Aspirina e Urubus”, de 2005. Junto com “O Baile Perfumado”, feito em 1997 por Paulo Caldas e Lírio Ferreira, são títulos que marcaram o início do ciclo ascendente dos cineastas pernambucanos. Esses que se colocam agora na linha de frente do cinema brasileiro, com obras como “Aquarius”, de Kleber Mendonça.

No papel do Mártir da Independência, temos Júlio Machado, que se tornou conhecido na TV pelo papel do jagunço Clemente, na novela “O Velho Chico”. Uma figura mais próxima de vilão do que de um herói. Um rosto marcante, mas de olhar feroz e macabro. O cabelo e a barba aparados à faca ampliam a aparência assustadora daquele militar mineiro, líder da Inconfidência. Não se trata de uma biografia detalhada, porque o roteiro se concentra no período em que ele era um policial, ocupado, em perseguir os contrabandistas das minas de ouro.


Júlio Machado vive um Tiradentes de aparência longe de idealizações

Alguns professores veteranos de história, talvez se escandalizem com o inesperado tratamento atribuído pelo diretor Marcelo Gomes à aparência e ao comportamento do Tiradentes. Especialmente à maneira brutal com que ele arrancava os dentes de quem o contratava para esse serviço. Mas também à sua ambição e a agressividade, que contrasta com aquela figura semelhante à de cristo, divulgada na maioria dos livros didáticos.

E, também, muito diferente daquele clássico do cinema novo, “Os Inconfidentes”, feito em 1972 por Joaquim Pedro de Andrade, assim como dos elegíacos poemas de Tomas Antonio Gonzaga e Cecilia Meireles. Os monumentos arquitetônicos do barroco, por sua vez, não aparecem nesta modesta reconstituição anterior ao luxo de Vila Rica.

Os atores Júlio Machado e Isábel Zuaa, o diretor Marcelo Gomes e o ator Welket Bungué
Façamos uma comparação com o atual “Sully – o Herói do Rio Hudson”, em que um piloto salvou centenas de passageiros, pousando o avião nas águas do rio. Ele atribuiu o sucesso daquela proeza ao conjunto de participantes de sua equipe. Por outro lado, no começo do filme Joaquim repete esta frase... “Aqui quem vos fala é um decatipado... Outros homens também conspiraram conta a coroa portuguesa, mas apenas eu perdi a cabeça”

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Passageiro: Profissão Repórter" é filme imperdível em mostra sobre Antonioni



Jack Nicholson e Maria Schneider fazem parte do filme.

Estamos dando continuidade à analise do filme “Passageiro: Profissão Repórter”, obra prima que Michelangelo Antonioni lançou em 1975. O filme se destaca entre aqueles que formam a Retrospectiva do cineasta Michelangelo Antonioni, que se estende até 22 de maio e acontece no CCBB de São Paulo e, posteriormente, no CineSesc. O texto do comentário se baseia originalmente num artigo publicado pelo crítico, na época em que o filme foi lançado em São Paulo.
No roteiro do queniano Mark Peploe, o protagonista é Jack Nicholson, no papel de um repórter a serviço da TV britânica. Ele está no deserto do Chade procurando dar início a uma reportagem em que pesquisa a ação dos guerrilheiros locais. Mas o repórter não consegue se comunicar com esses dado o fato de suas línguas não serem a mesma. Numa cena posterior, o repórter caminha sozinho e desanimado. E tenta contato com um garoto, que permanece impassível. O diretor não cede à nossa curiosidade, até porque a proposta de Antonioni é, como sempre, questionar a comunicação entre as pessoas.

Numa representação física do drama vivido pelo personagem central, o Land Rover com o que ele se locomove atola na areia do deserto. Ele volta ao hotel e descobre que o seu vizinho de quart, acabava de morrer de enfarte. Decide então trocar de personalidade com o morto, sem ao menos saber qual seria a sua atividade profissional. Nesse ponto, Antonione fabrica uma das suas mais intrincadas soluções narrativas.

Michelangelo Antonioni e Maria Schneider em set de gravação

Enquanto Nicholson falsifica o passaporte do morto, ouve-se uma conversa entre ele e o falecido. Ele olha para um canto e, sem corte, a tela nos mostra o bate papo entre os dois. E essa conversa termina quando Nicholson desliga um gravador. Não era portanto um flash back, mas um replay.


Com a nova personalidade, o repórter vive um período de paz, antes que tudo volte a se complicar. A última cena procura exprimir o sentido global do filme. Ou seja, a ideia é de que tudo sempre recomeça. Segundo Antonioni, embora ainda não sendo conclusivo, esse plano-sequencia é essencial, e, inclusive levou 11 dias para ser filmado. Portanto não perca “Passageiro: Profissão Repórter”, de Michelangelo Antonioni

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Mostra sobre Antonioni exibe grandes clássicos. Dentre eles, "Passageiro: Profissão Repórter"



Cena do longa "Profissão Repórter", com Jack Nicholson

Entre os dias 26 de abril e 22 de maio acontece no CCBB de São Paulo uma Retrospectiva – talvez a mais completa exibida até hoje – do mestre Michelangelo Antonioni, que morreu em 2007 aos 95 anos. A partir do dia 11 de maio essa mostra será replicada no Cinesc até o dia 17, sempre com cópias digitais ou em película 35 mm. Poderemos ver tudo o que ele criou: desde os curtas iniciais até as obras primas da maturidade.

Trailer de "O Eclipse", memorável filme em cartaz no CCBB:

Ao lado dos títulos mais conhecidos, como “Blow Up” e a chamada “Trilogia da Incomunicabilidade”, se destaca “Passageiro Profissão Repórter”, estrelado por Jack Nicholson. O destaque vem de seu caráter inovador ou, melhor, revolucionário em termos de linguagem. Em duas salas de cinema, o filme estreou em São Paulo em abril de 1976, portanto há 41 anos. Eu, Luciano Ramos, escrevi a crítica para o Jornal da Tarde, e seleciono trechos que reproduzo agora.

Considerava o filme como “uma realização tão desconcertante quanto deve ter sido o primeiro contra-plano, ou a primeira fusão de imagens da história do cinema". Trata-se de um plano-sequencia com sete minutos de duração, em que a câmara passeia pelo interior de um quarto de hotel, voa para gora, ultrapassando as grades da janela, circula pela praça em frente e enquadra o ponto de partida.

Continuando os trechos selecionados de minha crítica de 1976, afirmo que "os fatos cruciais do enredo acontecem dentro daqueles minutos, mas sempre fora do nosso campo de visão. Com isso, o que não aparece na imagem torna-se estranhamente vivo. Essa dinamização da área exterior à tela amplia o peso dos limites da percepção visual, bem como o desequilíbrio entre o aparente e o transparente captados pela câmara. (...) Os cortes de tempo mantem-se imprevisíveis, forçando ao máximo a atenção e se negando a satisfazer qualquer expectativa da plateia."


Trailer de "Passageiro: Profissão Repórter"
Ou seja, a objetiva nunca se compromete com o desejo da plateia e nem com o ritmo da história. Às vezes se demora sobre um detalha da paisagem, antes de enfocar os atores. Ou permanece no ambiente, mesmo depois dos intérpretes terem se retirado. Assim, o cineasta rompe com os esquemas consagrados de narração e não compactua com os condicionamentos cinematográficos costumeiros do público. Torna-se o senhor absoluto do espetáculo e obriga o espectador a preocupar-se com o que está acontecendo fora da tela. Não apenas com a ação do repórter, mas com o tema que ele pretende noticiar.

Em breve continuaremos a análise de “Passageiro: Profissão Repórter”, obra prima que Michelangelo Antonioni lançou em 1975 e que se destaca entre aquelas que formam a Retrospectiva do cineasta lendário, a ser mostrada até 22 de maio e acontece no CCBB de São Paulo e, em seguida, no Cinesesc.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Jim Jarmush se reinventa, como de costume, em seu "Paterson"



Adam Driver e Golshifteh Farahani em cena como namorados

As pessoas que vão assistir “Paterson”, do celebrado Jim Jarmush, assumem posturas diferentes em relação ao filme. Boa parte se mostra ainda marcada pela lembrança do icônico “Daunbailó”, que ele fez aos 33 anos e o colocou criador num patamar de prestígio geralmente só atingido por veteranos. Desde aquele trabalho de 1986, esse cineasta tem lançado filmes no mínimo inusitados e surpreendentes. Como se ele se encontrasse constantemente em fuga da repetição.
De fato, ele sempre faz um filme diferente do outro. Basta observar obras tão diferenciadas, como “Flores Partidas” de 2005 e “Amantes Eternos” de 2013. E “Paterson”, por sua vez vem sendo amplamente considerado como “um filme poético”. De fato algumas coisas estranhas se manifestam no roteiro. Em primeiro lugar a misteriosa coincidência: Paterson é o nome da cidadezinha real do estado de Nova Jersey onde acontece a história, e é também o nome do protagonista.

O personagem se dedica a duas atividades aparentemente antagônicas: ele trabalha como motorista de ônibus e também é poeta. Repete o mesmo trajeto todos os dias e sua rotina é feita de gestos que se reiteram, dia após dia: toma o café com a esposa, passeia com o cão, bebe uma cerveja no bar, escreve versos na hora do almoço e assim por diante. O personagem é interpretado por Adam Driver – um dos que fez o papel de padre no filme “Silêncio”, de Martin Scorcese. Por outro lado, a talentosíssima Golshifteh Farahani, que interpreta a esposa dele é uma celebridade no cinema iraniano e europeu.


O protagonista Paterson (Adam Driver), que tem mesmo nome de sua cidade

Acontece que, igualmente, no sentido estrito e preciso desse adjetivo, a designação de poético se mostra adequada porque, acima de tudo, a própria estrutura do roteiro é construída em função dessa qualidade. Além da musicalidade dos diálogos, ao assistir o filme, poderemos notar que as suas partes se intercalam e se repetem mais ou menos como as estrofes e as rimas de uma poesia. Foi estudando a composição “O Corvo” de Edgar Alan Poe, com aquele pássaro que repetia“Nunca Mais, Nunca mais”, que o linguista Roman Jacobson definiu o conceito de função poética da linguagem.

domingo, 26 de março de 2017

"Conspiração e Poder" questiona: vale mais a ética ou as conveniências do poder?



Robert Redford e Cate Blanchett compõem o elenco do filme "jornalístico-político"

O título original do filme “Conspiração e Poder” é “Truth”, ou seja, “Verdade”. Porque afinal é disso de que ele trata. Tudo se passa nos bastidores do departamento de jornalismo da CBS, ou seja, da Columbia Broadcast System. Ao lado da NBC e da ABC, a CBS é uma das três maiores redes norte americanas de rádio e TV. Imagine-se o poder que essa corporação detém no dia a dia dos EUA, ao exercer o oficio de descobrir e de revelar aquilo que se chama de “verdade”. Neste filme em que Robert Redford faz o papel do âncora Dan Rather, veremos o que pode acontecer quando essa empresa colide com os interesses da Casa Branca.
Os jornalistas descobriram que o presidente tinha evitado os combates durante o seu serviço militar no Vietnã. Isso seria uma mancha na carreira de George Bush que acontecera 40 anos antes dele se candidatar à reeleição em 2004. Para desviar o foco do noticiário sobre o assunto, o governo agiu para desacreditar os documentos, e assim, evitar a discussão se o futuro presidente fugiu ou não fugiu dos combates. Aqui no Brasil, aliás, a gente já viu esse truque em plena execução... 

Este é o primeiro filme dirigido pelo jovem roteirista James Vanderbilt que escreveu os filmes recentes do Homem-Aranha e adquiriu celebridade imediata em 2007, ao redigir o roteiro de “Zodíaco”, um excelente drama de suspense em torno de um espinhoso caso de jornalismo policial. Seguindo a linha daquele filme estrelado por Jake Gylenhall, Robert Downey Jr.
 e Mark Ruffalo, temos agora a competente Cate Blanchet no papel de Mary Mates, a produtora do programa “60 Minutos” apresentado por Dan Rather na CBS até 2005 e também autora do livro que deu origem ao roteiro.


Cate Blnachett está glorificante no papel principal

Todos sabemos que, em 1938, quando ainda era apenas radialista, o cineasta Orson Welles lançou uma adaptação radiofônica do livro de ficção científica “A Guerra dos Mundos”. A história foi contada pelo rádio como se fosse uma reportagem e muita gente entrou em pânico. Essa mentira, esse fingimento teve um sucesso tão retumbante que levou Welles para Hollywood. Mas aquele projeto estava fundamentado numa farsa e, até hoje, representa um problema de natureza ética. Isto é, o que viria em primeiro lugar... a verdade sobre o fato ou as conveniências do poder e das empresas de comunicação? Ou, colocando de outro modo, prevaleceria o título brasileiro “Conspiração e Poder”, ou o americano, que é simplesmente “Verdade”.